Escrito ao som de "Nine Inch Nails - Everyday Is Exactly The Same"

Num tempo em que a imensa maioria do conteúdo presente nas redes sociais transita entre discussões inúteis e acaloradas (principalmente sobre política), fake news e tentativas de se alimentar uma carência de atenção (sim, a gente posta porque quer ser visto, notado e admirado, e não vejo isso como errado, desde que não se torne uma obsessão), é cada vez mais raro encontrar alguma coisa legal que alguém compartilha na intenção de mostrar algo novo e interessante aos amigos.

Em meio a tudo isso, há uns tempos vi um vídeo no Facebook que achei muito legal, me fez pensar. Quem já assistiu o programa "Provocações", da TV Cultura, sabe que o apresentador Abujamra declama um texto diferente a cada edição. O vídeo que me chamou a atenção não é a versão original do programa, mas pega trechos do apresentador interpretando o poema "Mude", de Edson Marques, e junta com imagens aleatórias, mas que acabam entrando em sintonia. Em vez de tentar explicar, assista o vídeo:

Me fez pensar como a gente vive tão acostumado a ter sempre os mesmos hábitos. Por mais que sejam boas e seguras, ficamos presos às mesmas experiências, seja por comodidade, segurança ou apenas medo de mudar. Sair da zona de conforto e buscar o novo pode ser difícil (e é para a maioria de nós), mas o fato de ser uma tarefa árdua não significa que não deve ser tentada.

Coragem. Mude. Mude, mas comece devagar, porque a direção é mais importante que a velocidade.

De coisas simples e bobas do cotidiano ("durma do outro lado da cama") a coisas mais complexas e que não dependem apenas da nossa vontade de mudar ("depois, procure dormir em outras camas..."), o poema nos instiga a buscar o novo em uma série de situações que 90% de nós fazemos de forma automática todo santo dia: cumprimentamos (e viramos a cara para) as mesmas pessoas, usamos os mesmos meios de transporte, passamos pelos mesmos lugares e tudo mais. Podemos repetir um único dia por semanas, meses, até anos.

Tentar o novo todo dia, além de um exercício, nos abre a possibilidade do imprevisível, do não-programado. Sendo resultado dessa incerteza, podemos nos deparar com coisas boas e ruins, mas a simples ideia de algo ruim acontecer já é motivo de nem tentarmos o novo. Por isso é bom pensar que algo ruim já está acontecendo desde o momento que o medo da mudança se tornou maior que o medo da (possível) desgraça.

Para mim, esse texto/video me fez pensar na importância de não se acomodar, não se acostumar com a vida programada, engessada, sem dinamismo. Espero que tenha um efeito parecido em quem o assistir. O poema original termina com uma frase que não está no vídeo:

A salvação é pelo risco, sem o qual a vida não vale a pena.